Mudança de cargos se intensificou nas últimas semanas. Com a movimentação, governador pretende facilitar a aprovação de novos projetos na Câmara Legislativa
 
 

Perto de completar dois anos de mandato, o governador Ibaneis Rocha (MDB) promove dança das cadeiras no Executivo. Diversos órgãos ganharam uma cara diferente daquela do início da gestão. As indicações políticas vêm em um momento que o Palácio do Buriti tenta conseguir apoio para projetos como a privatização da Companhia Energética de Brasília (CEB), para barrar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e para alinhar propostas como a do Programa de Incentivo à Regularização Fiscal do Distrito Federal (Refis-DF).
Dos 24 deputados distritais, o governo conseguiu formar uma base composta por 17. Os movimentos ocorreram de forma estratégica. As trocas tiveram indicações de distritais que compunham o centrão, mas se inclinaram às expectativas do Executivo com a contrapartida de poderem indicar funcionários para cargos comissionados.
Na última semana, saiu no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF) a criação de uma nova pasta, a Secretaria Extraordinária da Família. O comando ficou sob a responsabilidade do pastor e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro Iliobaldo Vivas da Silva, o Léo Vivas. Vinculado à Igreja Universal, o deputado atende à base evangélica e, segundo o Correio apurou, teve aval de colegas de partido do líder religioso, os distritais Martins Machado e Rodrigo Delmasso, além do deputado federal Julio Cesar — todos do Republicanos.
Outra troca ocorreu na Secretaria de Desenvolvimento da Região Metropolitana, chefiada pelo secretário Paulo Roriz, que acabou exonerado na quinta-feira. Ele não foi realocado para outra pasta, e a gestão de temas do Entorno ficou com Manoel Gervásio Pinheiro Carvalho, tenente-coronel do Corpo de Bombeiros indicado pelo distrital Roosevelt Vilela (PSB), também integrante da corporação. O deputado conseguiu, ainda, recomendar o novo comandante do Corpo de Bombeiros, coronel William Augusto Ferreira Bomfim, no lugar do coronel Lisandro Paixão dos Santos.
Do partido do ex-governador Rodrigo Rollemberg, Roosevelt apresentou o requerimento para criação de uma CPI da Saúde mais ampla, que abrangesse também os dois governos que antecederam o de Ibaneis. Com essa medida, um dos signatários da CPI da Pandemia, o deputado Daniel Donizet (PL), retirou o apoio da investigação articulada por Grass. Ele também foi agraciado com cargos na administração regional do Gama.
Administrações
Na área de segurança, as exonerações e nomeações contemplaram o deputado Reginaldo Sardinha (Avante). Agente penitenciário da Polícia Civil do DF, Sardinha indicou o secretário do Sistema Penitenciário, o delegado aposentado Agnaldo Novato Curado Filho, no lugar do delegado Adval Cardoso de Matos, que não ficou desabrigado. Assumiu a Corregedoria-Geral da Polícia Civil do DF.
A chefia de gabinete da Sesipe também passou por trocas. Saiu o delegado Érito Pereira da Cunha e entrou o delegado aposentado Geraldo Nugoli. Os titulares de outros 10 cargos foram substituídos.
Além disso, Sardinha indicou o comando de duas administrações regionais onde perdeu aliados: Cruzeiro e Sudoeste/Octogonal. Na primeira, saiu Renato Couto Mendonça e entrou Luiz Eduardo Gomes de Paula Pessoa. No Sudoeste/Octogonal, Daniel Damasceno Crepaldi deixou o cargo e foi substituído por Tereza Canal Lamb. Todos os titulares de cargos estratégicos das duas administrações regionais foram recomendações do deputado.
Ainda nas administrações, o governador trocou o comando da regional do Sol Nascente. Saiu José Goudim Carneiro e assumiu Cláudio Ferreira Domingues, sugerido pelo deputado Fernando Fernandes (Pros). No primeiro ano de governo, ele foi administrador de Ceilândia, mas deixou o cargo e perdeu a estrutura para o advogado Marcelo Piauí, amigo e aposta política de Ibaneis. Agora, Fernandes ganhou outro espaço político, no Sol Nascente. Em Águas Claras, Ibaneis exonerou Francisco de Assis da Silva e nomeou André Luis Queiroz Rosa.
O jogo de xadrez entre o Palácio do Buriti e a Câmara Legislativa não acontece por acaso. O mês passado começou com forte pressão dos parlamentares da oposição pela instalação da CPI da Pandemia, para apurar as suspeitas de desvios na área da saúde que levaram à prisão da cúpula da pasta na Operação Falso Negativo. O requerimento teve dificuldades para conseguir as 13 assinaturas necessárias para que a comissão fosse criada e, depois de aprovado pela maioria, enfrentou novo obstáculo, desta vez, por parte da Procuradoria da Casa, que considerou não haver requisitos necessários.
Ibaneis contornou a situação para evitar uma exploração política das suspeitas, em uma CPI que seria comandada por um deputado da oposição, Leandro Grass (Rede), autor do requerimento.
Num momento de aproximação com os distritais, o Executivo local deu outro passo importante. Figura central na articulação do governo com o Legislativo, o secretário de Relações Institucionais Bispo Renato perdeu a função e passou para o comando da Administração Regional de Taguatinga, mais próximo de um possível eleitorado. Desde então, as negociações com os distritais ficaram a cargo do próprio Ibaneis e da Casa Civil.
Na avaliação do cientista político Valdir Pucci, o governador deixou de lado a imagem de um político outsider criada na campanha para garantir a sobrevivência do governo. “Ele foi eleito com um discurso outsider, de uma pessoa que veio de fora desse meio, que faria a negociação com o legislativo baseado em ideias. Uma vez no governo, Ibaneis percebeu que a prática política do mundo real é diferente da campanha”, analisa.
Pucci ressalta que esse tipo de negociação faz parte do jogo político no Brasil e considera que o governador acerta ao fazer as trocas. Sem as substituições, os projetos do Executivo local ficariam paralisados na Câmara e o governador correria risco de ter um desgaste ainda maior com os parlamentares, segundo o professor. “Temos o exemplo do próprio governador do Rio, Wilson Witzel, que se recusou a entender a política brasileira e acabou fora do governo em menos de dois anos de mandato”, compara Valdir.
Na sexta-feira, o governador promoveu um almoço na Residência Oficial de Águas Claras, fechado para distritais, deputados federais, secretários de governo e presidentes de estatais do DF. O convite aos parlamentares surgiu de maneira descontraída, na reunião de terça-feira, quando o chefe do Buriti e aliados discutiram planos para a CEB, a reapresentação do Refis-DF e a proposta que exclui o limite mínimo de 50% de trabalhadores concursados em cargos comissionados.
David Fleischer, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB), considera que o governador se viu obrigado a adotar uma forma de negociação mais tradicional. “Esse toma lá, dá cá é o estilo tradicional de que não se tem como fugir. O que acontece com o Ibaneis é o mesmo que acontece com (Jair) Bolsonaro. Ambos se elegeram com a promessa de serem diferentes dos demais, mas, agora, se veem obrigados a ceder, a negociar, o que pode causar desconforto até na própria base. ‘Toma lá, dá cá’ é o nome do jogo”, completa David.
Dança das cadeiras
Substituições em secretarias e administrações regionais atendem demandas de parlamentares. Confira:
Agnaldo Novato Curado Filho
Secretário do Sistema Penitenciário
Quem indicou: Reginaldo Sardinha (Avante)
Cláudio Ferreira Domingues
Administrador Regional do Sol Nascente
Quem indicou: Fernando Fernandes (Pros)
Iliobaldo Vivas da Silva (Léo Vivas)
Secretário da Família
Quem indicou: parlamentares do Republicanos
Luiz Eduardo Gomes de Paula Pessoa
Administrador Regional do Cruzeiro
Quem indicou: Reginaldo Sardinha (Avante)
Manoel Gervásio Pinheiro
Secretário de Desenvolvimento da Região Metropolitana
Quem indicou: Roosevelt Vilela (PSB)
Tereza Canal Lamb
Administradora Regional do Sudoeste/Octogonal
Quem indicou: Reginaldo Sardinha (Avante)
William Augusto Ferreira Bomfim
Comandante do Corpo de Bombeiros
Quem indicou: Roosevelt Vilela (PSB)
Fonte - Correio Braziliense



Fonte: Correio Braziliense
Publicado em: 05/10/2020 11:56
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