Deste acanhado e escondido endereço no Sudoeste, saíram desde 2012 R$ 45 milhões em contratos com o governo federal
Foto: Vítor Mendonça/Jornal de Brasília
O acanhado “atacadão” invisível que fornece de tudo para o governo. De três saletas em subsolo do Sudoeste saíram R$ 45 milhões de produtos desde 2012
 
A longa lista de produtos mencionados no Portal da Transparência faria supor uma grande loja de departamentos, um enorme atacado com diversas seções.
 
Mas é de três acanhadas salas vizinhas em um subsolo de um prédio comercial no Setor Sudoeste que saiu, desde 2012, uma variedade imensa de produtos vendidos ao governo federal.
 
O supermercado invisível fica trancado a maior parte do tempo. Na frente dele, descansa solitária uma bicicleta. Lá dentro, é possível ver uma mesa e um sofá. Nenhuma caixa de nenhum produto. Mas é a partir dali que saíram produtos que resultaram em contratos que somaram a seus proprietários R$ 45 milhões, de 2012 até o final de 2020.
 
Sem fachada
 
As salas vizinhas venderam ao longo desse tempo ao governo acessórios de vestimenta militar, como coturnos, itens de alimentação e até reformas de estruturas em órgãos como a Guarda Nacional e campi dos Institutos Federais (IFs). Duas sedes foram visitadas pelo Jornal de Brasília, uma delas, Saúde & Vida Comercial de Alimentos, não possui fachada ou qualquer outra identificação.
 
 
A dona do estabelecimento, Azenate Barreto Abreu, é mãe do casal que opera os outros dois negócios na capital. Somente ela tem contratos firmados com a União que somam R$ 12,5 milhões. Em uma Nota Fiscal emitida ao 3º Esquadrão de Cavalaria do Rio de Janeiro, em novembro do ano passado, há registro de fornecimento de linguiça, bacon, couve e outros condimentos para a alimentação do Exército, como creme de leite e leite condensado.
 
Coturnos
 
Elvio Rosemberg da Silva Abreu Junior, filho de Azenete, chefia a DFX Comércio e Importação, e possui vários contratos junto à Defesa, como vendas de coturnos, uniformes, além de ar condicionado para instituições federais de educação profissional e tecnológica. Em uma venda para uma unidade de Pernambuco, em 2016, o valor cobrado por um aparelho de 12.000 BTU/H (Unidade Térmica Britânica por hora) foi R$ 2.300 . O eletrodoméstico hoje, pode ser encontrado por R$ 1.400 em uma loja de departamentos on-line – pouco mais da metade do valor cobrado.
 
No total, o segundo negócio da família já arrecadou R$ 25 milhões da União. Cynthia Nascente Schuab Abreu, casada com Elvio, é a dona da terceira empresa da família. Ela fornece serviço de construção civil para reformas nas estruturas do Exército. Até 31 de dezembro de 2020, a Schuab Abreu Engenharia recebeu R$ 7,1 milhões do governo federal.
 
Em conversa com o Jornal de Brasília, o advogado da empresa do ramo alimentício, Nelson Wilians, negou, ontem, que haja qualquer contrato irregular da família junto à União. A declaração é uma resposta às denúncias que circularam nas redes sociais de que haveria superfaturamento na venda do leite condensado pela empresa de Azenate. Segundo ele, houve uma confusão em torno do preço unitário do produto e a quantidade ofertada.
 
 
 
“Adedonha”: de “avião” a “zinco”
 
Quanto ao valor total negociado junto ao Ministério da Defesa, a pasta declarou ser um número “compreensível”, uma vez que é responsável pelo efetivo composto por 370 mil pessoas.
 
“A administração militar deve esforçar-se para assegurar a excelência da alimentação militar, quer nas Organizações Militares de Terra, quer nos navios, em tempo de paz e de guerra”, disseram em nota.
 
O que impressiona no caso é menos o fornecimento de leite condensado ou o valor pago por esse ou outros produtos. Nem mesmo é procurar entender por que razão o governo gasta dinheiro com chicletes ou pizzas. O que chama a atenção é de quem o governo compra tudo isso.
 
“Essas empresas têm geralmente uma mesa e um telefone”, diz o diretor executivo da ONG Contas Abertas, especializada na análise de despesas públicas, Gil Castello Branco. “É quase como um jogo de adedonha”, brinca Gil. “Você diz uma palavra com qualquer letra e a empresa se habilita para fornecer, de ‘avião’ a ‘zinco’”.
 
Gil observa que tal situação não é novidade. Acontece há anos e vem de outros governos. “O governo talvez seja o maior comprador do país. Não entendo por que não resolve isso”, diz ele.
 
No mínimo, analisa ele, tal situação encarece o preço dos produtos, uma vez que coloca na transação pelo menos um intermediário a mais entre o fornecedor e o comprador final. “O governo deveria encontrar uma forma de chegar ao fornecedor original. Ou, pelo menos, deveria desconfiar de empresas que se habilitam para vender qualquer coisa. Muitas vezes, a razão social da empresa nada tem a ver com o que ela está vendendo naquele caso específico. Isso deveria gerar uma desconfiança”, diz Gil. “Aí, o resultado, é chegar a esse tipo de situação, onde o que deveria ser um enorme supermercado vira somente uma saleta“.
 
Fonte - Redação Jornal de Brasilia