Sambista foi um dos maiores nomes da Mangueira e autor dos principais enredos da história da escola
 
Nelson Sargento e o violão, que o acompanhou por mais de 50 anos Foto: Gabriel Monteiro
Agência O Globo
 
Morreu, aos 96 anos, às 10h45 desta quinta-feira (27) o cantor e compositor Nelson Sargento. Baluarte da Mangueira, o sambista estava internado desde o dia 21 de maio no Inca (Instituto Nacional de Câncer) após testar positivo para Covid-19.
 
Nelson Sargento é eleito o cidadão do Samba. Homenagem do jornal Extra ao compositor 
Foto: Marcio Alves / Marcio AlvesClube do Samba. 
 
Em nota oficial, o Inca informa que o sambista chegou à unidade com quadro de "anorexia e desidratação", e que, realizado o teste de Covid-19, o resultado foi positivo. O instituto também afirma que foram feitos "todos os esforços terapêuticos" em busca da recuperação do estado de saúde de Nelson Sargento.
 
"O Instituto Nacional de Câncer (INCA) informa que o paciente Nelson Mattos, 96 anos, faleceu na manhã desta quinta-feira (27). Nelson Mattos deu entrada no hospital, no último dia 20, com quadro de desidratação, anorexia e significativa queda do estado geral. Ao chegar na unidade, foi realizado o teste de Covid-19, que apontou positivo. O paciente estava aos cuidados do INCA na Unidade de Terapia Intensiva desde o último sábado (21). Apesar de todos os esforços terapêuticos utilizados, o óbito ocorreu as 10h45 dessa quinta-feira, 27 de maio de 2021. Nelson Mattos era paciente do INCA desde 2005 quando foi diagnosticado e tratado um câncer de próstata", diz a nota.
 
Sargento foi vacinado contra Covid no dia 31 de janeiro, em uma cerimônia no Palácio da Cidade, na qual o prefeito Eduardo Paes deu início à campanha de vacinação para a terceira idade no Rio. Ao lado dele, estavam outros quatro idosos, entre eles o ator Orlando Drummond, de 101 anos. Mesmo tendo recebido as duas doses do imunizante, Nelson Sargento foi infectado. Ele deixa a mulher, Evonete Belizario Mattos, e os seis filhos biológicos (Fernando, José Geraldo, Marcos, Léo, Ricardo e Ronaldo), além de Rosemere, Rosemar e Rosana, que adotou.
 
Nelson Sargento comemora os 70 anos da amiga Beth Carvalho Foto: Marcos Ramos
Agência O Globo - 05/05/2016
 
Nascido Nelson Mattos em 25 de julho de 1924, ele tomou contato com o universo do samba ainda na infância, quando se mudou com a mãe e os 17 irmãos para o morro do Salgueiro, na Tijuca. Aos 10 anos, já desfilava e tocava tamborim na escola Azul e Branco (que em 1953 iria se fundir com a Depois Eu Digo e resultar na Acadêmicos do Salgueiro). Mas na Mangueira, para onde se mudou aos 12 anos, ele iria construir a sua história. Após perder o marido, sua mãe foi morar com o pintor de paredes lisboeta Alfredo Lourenço, o Português, compositor de fados convertido em sambista.
 
Antes de estourar na música, porém, o artista fez um pouco de tudo: pintou paredes, trabalhou em uma fábrica de vidros e, na década de 1940, serviu no Exército. Foi lá que ganhou o apelido Sargento, adotado profissionalmente mais tarde. Depois do Exército, emendou uma série de sucessos compondo com o seu padrasto. Juntos, venceram o concurso de samba-enredo da Mangueira em 1949, com “Apologia ao mestre”, e 1950, com “Plano SALTE”, conquistando os campeonatos para a escola nos respectivos carnavais.
 
O sucesso no carnaval consolidou a reputação de Nelson, que se juntou a outros ícones mangueirenses, como Cartola, Carlos Cachaça e Darcy da Mangueira. Tanto que, em 1958, tornou-se presidente da ala dos compositores. Na década de 1960 integrou formações seminais na história do samba, como A Voz do Morro (com Zé Kéti, José da Cruz, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro) e Os Cinco Crioulos (com Mauro Duarte e de novo Elton, Jair, Paulinho e Anescarzinho). Com eles, participou do histórico show “Rosa de Ouro”, produzido por Hermínio Bello de Carvalho em1965, no Teatro Jovem, em Botafogo.
 
Nelson foi autor de mais de 400 composições — muitas delas compostas no mesmo violão, que o acompanhou por mais de 50 anos. O instrumento foi comprado às pressas, de segunda mão, para que pudesse integrar o show “Rosas de Ouro”.
 
— O Elton (Medeiros) foi na Mangueira e deixou um recado para eu ir ao Teatro Jovem, para um trabalho — recordou ele, em uma entrevista de 2019. — Como eu era pintor de paredes na época, achei que seria para pintar o teatro. Só quando cheguei lá soube que precisavam de mais um compositor de samba para o grupo do espetáculo. Não tinha violão, e comprei este aí, como está agora. Continuei pintando as minhas paredes, mas dali em diante comecei a me profissionalizar.
 
Lançado em 1979, seu primeiro álbum solo, “Sonho de um sambista”, inclui clássicos como “Agoniza mas não morre”. Gravado por inúmeros intérpretes, e tratado como uma espécie de hino por Beth Carvalho, é uma exaltação à resiliência do samba. Nelson costumava dizer que fazer música era essencialmente “contar histórias”. E canções como “Falso amor sincero”, também presente em seu álbum de estreia, são exemplo da inteligência e humor com que “narrava” essas histórias. A música tem um dos versos mais famosos do artista: “O nosso amor é tão bonito/ Ela finge que me ama/ E eu finjo que acredito”.
 
Nos últimos anos, a longa vivência de Nelson transformou-o numa espécie de museu vivo da cultura, fonte de consulta permanente para pesquisas e produção de livros e filmes. Ele testemunhou a transformação das escolas em gigantes comerciais, e viu o samba ganhar as gravadoras e as paradas de sucesso.
 
Nelson também explorou outras facetas, como a de artista plástico. Ao pintar o apartamento do jornalista e compositor Sérgio Cabral, foi estimulado a expor sete quadros de sua fase abstrata, em 1973. Em 2019, teve 14 obras expostas no Espaço Favela do festival Rock in Rio. Em outro papel, o de ator, trabalhou em longas como “O primeiro dia”, de Walter Salles e Daniela Thomas, e “Orfeu”, de Cacá Diegues. E, como escritor, lançou em 1994 o livro de poemas “Prisioneiro do mundo”.
 
Mesmo após os 90 anos, continuou fazendo shows — em um dos mais recentes, “Nelson Sargento com vida”, de 2017, contou com participações de Monarco, Criolo, Diogo Nogueira, Sandra de Sá e Alcione. Em 2019, desfilou como Zumbi dos Palmares no enredo "Histórias para ninar gente grande", que deu o último título do carnaval à Estação Primeira de Mangueira.
 
— Enquanto os meninos que moram dentro da minha cabeça estiverem na ativa, continuarei fazendo algumas coisas — disse ele sobre sua vitalidade, em uma entrevista de 2018.
 
Ele foi internado no Inca (Instituto Nacional de Câncer) por causa de seu histórico — em 2005 ele tratou um câncer de próstata.
 
Fonte - O Globo