Levantamento da ONG Todos pela Educação, divulgado nesta terça (8), apontou o número de crianças entre 6 e 7 anos que não sabia ler ou escrever saltou de 1,429 milhão em 2019 para 2,367 milhões em 2021. O g1 entrou em contato com a secretaria municipal de educação de Uruçuí, que reconheceu que menino jamais deveria estar na 4ª série do ensino fundamental.
 
Mãe relata desafios de educação à distância; filho de 9 anos não aprendeu a ler ou escrever durante aulas na pandemia — Foto: Arquivo Pessoal
 
Mãe de dois meninos - de seis e nove anos -, uma dona de casa que preferiu não se identificar contou ao g1 que pediu para o filho mais velho ser reprovado na escola, uma unidade escolar municipal de Uruçuí, no Sul do Piauí. A medida "exagerada" é uma tentativa de que o menino, que aos nove anos não sabe ler nem escrever, consiga finalmente reconhecer as letras e escrever o próprio nome.
 
g1 entrou em contato com a Secretaria Municipal de Educação de Uruçuí, que informou que irá averiguar a situação do aluno e destacou que, com a pandemia, a educação foi muito prejudicada. Atualmente, na cidade, o sistema de avaliação em vigor é o acompanhamento de atividades impressas e devolutivas (confira a nota ao fim da reportagem).
 
A dona de casa contou que o ensino à distância na pandemia tem sido um desafio não apenas para profissionais da educação, mas também para pais e responsáveis que acompanham e precisam ajudar os filhos na hora de estudar.
 
De acordo com a mãe, o filho mais velho estuda em uma Unidade Escolar Municipal da região, que fica a uma hora de distância da casa da família.
 
Ela disse que a instituição envia tarefas mensais e livros didáticos para a criança, mas não presta assistência ou disponibiliza vídeo-aulas explicativas. A mãe contou que busca auxiliar as crianças no ensino, no intuito de tornar o método o mais eficiente possível, mas tem dificuldades para ajudar o menino.
 
"Pra entrar na cabeça da criança, tem que ter explicação. Já mandei várias vezes tarefa do meu menino de nove anos em branco. É coisa de livro e eu não tenho tempo pra ler, não sei responder. E mesmo assim, no final do período letivo, ele passou de ano", relatou a dona de casa.
 
O menino iria para a 4ª série do ensino fundamental em 2021, contudo a mãe exigiu à escola que ele permanecesse na 3ª série para reforçar os estudos.
 
"Começam a mandar umas tarefinhas de fazer conta, ele sabe os números, sabe contar e cobrir os números. Mas não sabe identificar as letras, escrever o próprio nome. Eu disse 'não, ele não vai passar'", contou a mãe.
 
A dona de casa contou que a situação mais complicada é do menino mais velho, que ainda não sabe ler ou escrever. Mas o mais novo, de seis anos, frequentou apenas a creche e também não foi alfabetizado ainda.
 
Aumento de crianças que não sabem ler nem escrever
 
O caso dos irmãos é um exemplo do levantamento da ONG Todos pela Educação, que mostra que o número de crianças entre 6 e 7 anos que não sabia ler ou escrever saltou de 1,429 milhão em 2019 para 2,367 milhões em 2021. O dado do ano passado representa um aumento 65,6% em comparação com 2019.
 
Para a ONG Todos Pela Educação, a pandemia de Covid-19 é a principal responsável pela queda na alfabetização, que causou a suspensão de aulas presenciais e obrigou as redes de ensino a se adaptar nos últimos dois anos.
 
A mãe confirma a dificuldade imposta pela necessidade de isolamento social, destacando que em grande parte a situação fica ainda mais complicada porque os pais também não concluíram os estudos.
 
“A realidade do interior é que muitos pais não sabem ler ou escrever e não tem como ensinar os filhos, muito menos pagar um reforço. A gente se vira como pode. Alguma coisinha que a gente saiba, vai explicando, mas a maioria do povo do interior tem pouco estudo," comentou a mãe.
Alfabetização na pandemia — Foto: Arte: g1
 
A mãe relatou que a situação de muitas outras crianças do município é a mesma. Segundo ela, aumentou o número de pais que têm desistido e retirado os filhos da escola nos últimos meses.
 
"No grupo de Whatsapp, agora só tem 8 pais. No primeiro ano de pandemia, a escola dava cestas básicas e isso incentivava, mesmo com o ensino ruim. Hoje não", completou.
 
Confira a nota completa da Secretaria de Educação de Uruçuí
 
A Secretaria de Educação irá averiguar a situação, por que até o momento não fomos informados sobre esse assunto, neste período de pandemia o sistema de avaliação adotado pela Instituição Municipal de Educação é através do acompanhamento das atividades impressas e das devolutivas, sobre a mudança de nível do aluno, ele ainda está no ciclo de alfabetização, mas pela colocação da denúncia ele jamais poderia estar no 4º ano de acordo com esse tempo, sendo assim, iremos tomar as devidas providências ao fato aqui denunciado. Sobre a forma das aulas remotas, infelizmente com a pandemia a educação foi muito prejudicada e não somente em Uruçuí como também no Brasil e no mundo e nas escolas da zona rural ficou tudo ainda mais complicado, sem internet, sem a presença dos alunos e com a dificuldade do acompanhamento das famílias.
 
Fonte -  g1 Piauí